terça-feira, 26 de maio de 2009

Hoje andei à caça de assunto para escrever.
Tendo em conta que até vivo numa aldeiazita pequena não é raro faltar assunto.
Andei na rua por um bocado e depois de deitar o lixo e as garrafitas no ecoponto (que já vagueavam lá por casa à um tempito) passei por uma Senhora (que por acaso vejo todos os dias mas só hoje reparei nela) e como até nem estava com a cabeça na Lua disse-lhe "Boa Tarde"...
Ok..
Isto não é muito confesso....
Mas para meu espanto, quando baixei a cabeça para acenar e olhei para os olhos dela, ela parecia feliz.
Não aquele feliz histérico e desenfreado das pessoas de hoje, mas um feliz que parecia não existir à muito....
E depois de olhar para os seus olhos azuis de cegueira continuei a andar (já bastante emocionada) e ela começou a falar em voz alta "Já lá vai o tempo em que eu andava como tu, menina, eu também andava depressa atrás da vida"....... ok...
Eu não tenho por costume emocionar-me com coisas destas, mas aquela bateu-me lá no fundo da minha insensibilidade, consegui ouvir na voz dela a saudade dos tempos em que ela corria e eu nem sonhava existir.
Até a pouco tempo eu olhava para as pessoas de mais idade como "pessoas de mais idade" e não como pessoas que ficaram mais velhas. Encarava as pessoas mais velhas como se elas tivessem nascido velhas, o que é estranho é que a maioria faz o mesmo e nunca param para pensar.
A minha vizinha de 80 anos já teve uma mãe que a obrigava a lavar a loiça como a minha me obriga, a minha outra vizinha de 75 teve um pai que não a deixava namorar como o meu também não deixa... Todos eles já tiveram convicções, crenças, papeira, sarampo, birras e conversas sobre os namorados e namoradas...
Então e agora?
Ficam assim? Só assim?
Porquê?
E quando for comigo?
O que é que se sente quando se vê alguém fazer o que nós já não vamos conseguir permanentemente? O que é que eu vou sonhar quando já tiver uma bengala como companhia diária? Como é que eu explico a alguém o que já fui, sem que me passem a mão na cabeça e digam "já está velhinha coitadinha"?


.Cindarella.

1 comentário:

  1. Speachless. Adorei 'Cindarella'! :)

    quase me fez emocionar, dizes tanto em tão pouco e está mesmo bem escrito.

    é incrivel como às vezes as palavras de alguém mais velho, experiente, etc, podem fazer-nos pensar como as de nenhuma outra pessoa.
    Não tenhas medo de um dia não conseguir fazer o que em jovem conseguias. A unica coisa q devemos temer é apenas isto: um dia olhar para o lado e ter apenas uma 'bengala' a quem contar o que já fomos, o que conseguiamos fazer antes, o que vivemos...
    Mais uma vez, adorei (e desculpa o testamento, lol)

    *Joana

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